Estradas de Silêncio e Sonhos

Viajar o silêncio das palavras ao vento. Descobrir o som do amor nos cantos da praça. Sonhar a esperança das cores em vozes dissonantes. Questionar o insensato. Ver, ouvir, tocar, pensar, agir, criar, estar, ser. Viver!

Chuva 07/09/2006

Filed under: Palavras ao vento - Meus Contos — cristianeurbinatti @ 1:44

Não houve briga, discussão, ofensas. Não se ouviu uma palavra. Mas naquele instante, em que o silêncio era mais alto do que o som da chuva: a separação. Seus olhares buscavam o encontro, só que seus corações não conseguiam ouvir. A distância ocupava o seu lugar no pódio: em pé diante da janela, acolhida pela cortina vermelha do Espaço Café, ela via a imagem dele ali em frente, parado, olhando pra ela e banhado pela chuva. Ele escorria por dentro, mas isso ela não viu.

As gotas que se derretiam pelo vidro tentaram limpar o vazio que preenchia os segundos, mas conseguiram apenas desfigurar ainda mais aquele cenário. Era chuva ou lágrima que brotava de seus corpos?

A distância aumentava a cada passo e a cada esquina o ar propagava o pedido de socorro. Estavam em seus quartos, deitados em suas camas, quando o lamento da chuva os despertou de vez da tentativa de dormir e de acordar de um sonho absurdo. A chuva batia em suas janelas sussurrando que aquilo fora uma bobagem passageira. E o que os ensurdeciam eram seus corações afogados pela mágoa, pelo medo, pela incerteza. Eles é que choviam. Estavam tão molhados quanto as ruas que os separavam. Ah, se pudessem se ver neste momento! Descobririam o quanto são amados! Mas sabem apenas que amam. Amam e amam e… Eu te amo… Como dizer isso sem trair o verdadeiro sentido? Sem tornar menor aquilo que os consumia? Precisavam se tocar. “Eu te amo é um acorde importante pra ser cantado com atitudes supérfluas”. Ambos pensavam a mesma coisa, ambos aprenderam isso da mesma forma. Amando um ao outro.

Amanheceu, mas para ambos não existira o tempo, só aquilo que os mantiveram acordados. E na rua úmida de salivas, na encruzilhada se encontraram. Aquelas gotas, que sussurraram a noite toda, os levaram até ali. Entraram no Espaço Café, aquele das cortinas vermelhas, e se perceberam. Sentiram-se. Souberam em segredo como havia sido aquela noite. Sorriram um para o outro concordando suas agonias infantis. Concordando que tiveram medo do que é mais profundo.

Eu te amo! Eu também te amo! Nenhuma palavra foi dita, não precisava. Aprenderam a dizer sem palavras. Que bom poder confiar no sussurrar da chuva!

Cristiane Urbinatti

São Paulo, 12/01/05

 

Semáforo 25/07/2006

Filed under: Palavras ao vento - Meus Contos — cristianeurbinatti @ 2:04

Galeria de José Manuel Lucía - Flickr

Em pé, na esquina da Consolação com a Rego Freitas, estava Letícia. Ela esperava. Esperava a aproximação, o contato. E seria esse o momento de dizer tudo o que precisava ser dito. Ela, em pé naquela esquina, tentava colocar em ordem seus pensamentos, vacilar no que era para ser dito ou na maneira de dizer, seria colocar tudo a perder. Seria perder de vista o homem que sempre esperou e que agora, mais do que nunca, sabia, era amor. Enquanto mergulhava nos pensamentos e sentimentos, em pausa para o mundo, tudo girava ao seu redor. Os carros buzinavam seus gritos de socorro. A Consolação parada com motores roncando as horas de fome; pessoas apressadas, indo e vindo em passos caóticos; a fumaça impregnando narizes alérgicos; o sino da igreja indicando a hora do fim do dia. Letícia parada naquela esquina, olhos fixos num único ponto que desviavam somente para a mudança de cor do semáforo. Cada cor que mudava era um relógio pontuando o momento que se aproximava. Dentro de poucos minutos, ele chegaria e ela diria tudo. Tudo que deveria ter dito desde o primeiro instante, mas lhe faltou coragem. Verde, amarelo, vermelho… O barulho da cidade, cada vez mais alto, e o movimento das ruas, cada vez mais intenso, passavam mudos para ela que estava ali, em pé. O seu olhar não via as coisas na velocidade em que ocorriam e o volume parecia surdo. Eram apenas as cores do semáforo que despertavam sua atenção para o mundo real. Aos poucos a batida de seu coração ia ficando cada vez mais forte e o único som que chegava aos seus ouvidos. Suas mãos estavam trêmulas e o seu corpo em calafrios, misturavam a sensação de medo e prazer. Daqui a poucos minutos ela se entregaria. Entregaria sua alma para uma nova descoberta. Verde, amarelo, vermelho… Dos olhos começaram a brotar pequenas gotas salgadas. Era amor. De repente o andar conhecido a alguns metros do seu corpo. Chegava cada vez mais perto. Ela diria tudo, sem vacilar. Diria tudo. Que bom que havia tomado aquela decisão. Uma decisão importante para tudo que viria daqui por diante. A cidade foi congelando ao seu redor. A cada passo o mundo se desfocava e ele vinha em sua direção. Essa seria a hora! Diria que tem algo muito importante a dizer. Diria. Sem poupá-lo de nenhum detalhe e assim ele estaria livre pra pensar ou agir como quisesse diante da revelação. Diria e tudo seria simples enfim. Diria e ponto. O calor do corpo dele se aproximava como a chegada da primavera que aquece as árvores. Verde, amarelo, vermelho… O ar que respirava era uma vida nova, tinha um sabor novo, um sabor nunca experimentado. Inspirava vida e expirava para o mundo a sua oferenda. Queria que tudo e todos sentissem essa mesma sensação de estar plena naquela esquina. Começou a rir com tanta graça que as pessoas que passavam por ela se admiravam e sorriam no meio do caos cinzento. Ele se aproximava e ela ria e ria e ria. Seus corpos se comunicaram finalmente e ela num surto delicioso de prazer o admirava, o observava, o olhava infinitamente e ele sorria sem entender o que estava acontecendo naquele fragmento de instante eterno. De seus olhos surgiu mais uma daquelas gotas salgadas e profundamente em silêncio, pois as palavras… As palavras! O semáforo continuava com sua dança de cores e seus olhos se tocavam e foi então que ela percebeu: dos olhos dele também escorriam gotas que tocavam uma boca em sorriso. As palavras! Vermelho, amarelo, VERDE… Os carros agora transitavam livremente pela Consolação. As ruas estavam livres e o sinal Verde! Nada precisou ser dito.

Cristiane Urbinatti

São Paulo, 10/2004

 

Cômodas Coisas Cotidianas 25/05/2006

Filed under: Palavras ao vento - Meus Contos — cristianeurbinatti @ 16:53

Dentro do ônibus em SP

Barulho. Multidão. Trens. Pés apressados. Velocidade. Pés descalços. Choros e risadas. Lamentações. Desrespeito de cidadãos. Cólera engasgada. Sacos de cola. Beijos camuflados de amor, de interesse. Verde, cinza, cinza, cinza… Cores de propaganda. Luto. Olhar de esperança. Rostos descrentes. Deus, cadê? Imaginações, sonhos, desejos. Esconderijos secretos. Batida rítmica de corações. Esquecimentos. Ideais. Lembranças. Capas de revistas. “Dez por dois real”. Dez vezes longe daqui. Dez quilômetros de lugar nenhum. Cinza, cinza, vermelho. Sangue derramado no asfalto. Alguém? Zé ninguém. Anônimo caminha ao céu. Clima infernal. Rostos e corpos cansados. Sono. Sonhos, desejos, lembranças. Vontade de comer bala e pipoca e refrigerante. Cinema com galã. Que alívio! Pés apressados, pés completamente perdidos no caos. Multidão. Falta de abraços. Gritos. Não se pode perder tempo com coisas fúteis. “Time is money”. Money is… sobrevivência. Sufocamento de vida. Apartamentos fechados e tv’s ligadas. Caixões sombrios. Solidão de estar só, sofrendo, sem soprar algo para alguém. Sorvete com calda de chocolate. Conforto. Doce. Solidão. Cama vazia e um travesseiro. Gosto amargo do amigo ausente. Todos os dias iguais. Todas as horas a mesma coisa. Todas as bocas com a mesma expressão. Cinza, cinza, cinza, preto, preto, preto. Nada muda. Vontade de começar de novo. Verde, verde, ver…

 

Concretudes 25/05/2006

Filed under: Palavras ao vento - Meus Contos — cristianeurbinatti @ 16:33

Desenho by Cris Urbinatti

Concreto caminho de concretos, suportando buzinas e rodas a 1 Km/hora. Corpos estendidos sob e sobre passarelas de concretos, transitadas por ambulantes miseráveis e outros tantos, mais miseráveis ainda. Estes estão mais perto do céu, enquanto os encaixotados engravatados vão dentro de seus carros com suas amarguras, mais próximos do inferno. Ambos formigas que habitam os prédios de concreto capital. Formigas treinadas como máquinas de fazer coisas concretas. Todos mortos por atitudes concretas. Rodeados de fatos visíveis escondidos em túneis concretos. Fim do dia. Corpos miseráveis, mais tantos outros tão miseráveis quanto, concretos e cansados, embalados por trens subterrâneos nos seus trilhos de ferro estridente.

Assim retornam todos os miseráveis para os seus abrigos concretos, fingindo qualquer coisa que não suportam. Deitam suas cabeças cansadas e constrangidas num travesseiro duro e aguardam o momento da libertação. Enfim, tudo é habitável, instável e flexível. Conforta, dá medo. Ausência de concretos que aprisionam. Pena. Tudo é sonho e depois vem outro dia.

 

 
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