Estradas de Silêncio e Sonhos

Viajar o silêncio das palavras ao vento. Descobrir o som do amor nos cantos da praça. Sonhar a esperança das cores em vozes dissonantes. Questionar o insensato. Ver, ouvir, tocar, pensar, agir, criar, estar, ser. Viver!

INsomnia 08/01/2017

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Ela sentada na cama, num quarto escuro, deseja e não consegue, não pode dormir…

Sente falta do que ainda não viveu e deseja…

Secretamente, deseja…

Quer que a vida a surpreenda, mas não sabe ela própria como surpreender a vida…

E deseja.

A liberdade… procura incansavelmente, mas as amarras estão onde já pode alcançar…

Basta enxergar o que de fato se apresenta…

Desatar o primeiro nó e, então, voar.

Tem medo e não sabe do quê…

Tem medo e não sabe por quê…

Tem medo de ser grande demais…

Mas já ocupa um espaço maior no mundo…

Não se cabe nele, no mundo, porque deseja.

Conversa com os monstros debaixo da cama…

Tem vontade de gritar para que vão embora,

Mas, não, conversa e suas palavras preenchem a noite.

Quer fechar os olhos e sonhar, mas os monstros alfinetam seu silêncio…

Quer sonhar.

Descobre música, nas luzes coloridas que enfeitam o quarto…

Quer cantar…

Mas é uma hora surda, então a melodia vira movimento…

Quer dançar…

E dança.

Dança nas imagens que formam no espaço um rabisco embaçado…

Toca as notas no ar com seus pés que bailam a sonata das horas…

Há silêncio na noite negra que já inicia a sua despedida…

Quietude plena que cala o tempo e se esvai no espaço sem deixar rastros.

Ela quer sonhar…

Quer cantar…

Ela quer dançar…

E dança…

Porque ainda deseja…

E deseja…

E vive… o sonho!

O dia amanhece.

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Declaração de amor eterno 18/08/2016

Filed under: Sem categoria — cristianeurbinatti @ 23:05

No dia 13/03/1979, toda a minha vida ganharia um sentido eterno e de início eu nem queria aceitar.
Neste dia, quando eu tinha 3 anos e meio, minha tia me levou numa sala com um monte de bebezinhos e eu escolhi o meu, era um menininho negro bochechudo que eu achei lindo demais. Minha tia disse que não podia ser ele, pois ele era de outra família. Apontou a menininha do lado e disse que ela sim era minha irmã. Eu não queria de jeito nenhum… eu queria ele e insisti que tinha de ser ele. Minha tia pacientemente me explicou que não podia ser assim.
_ Mas tia, ele vai se chamar Carlos. – eu dizia.
E mais uma vez ela explicou que não era possível. Eu de bico gigante e braços cruzados, disse:
_ Então, vai se chamar Carlas!
É assim que a maior alegria da minha vida chegou e hoje não suporto pensar minha existência sem ela. Minha irmã, minha amiga, às vezes mãe e às vezes até minha chefe, rsrsrsrs. Agradeço cada pedaço de minuto por ela existir e por eu não ter podido levar aquele menininho, que eu espero que ainda hoje seja tão amado quanto a minha Carlas…

Sis eu te amo absurdamente até o infinito…

Obrigada mama Angela e papito, David, por terem me dado o maior presente que eu poderia ter ganho em toda a minha existência: minha irmã Carla.

 

O vôo do poeta-passarinho Manoel de Barros 13/11/2014

Manoel-de-Barros (2 boa)O meu encontro com Manoel de Barros aconteceu há alguns anos, quando eu estava em turnê com o Grupo XPTO no 1º Festival Sesi Bonecos do Brasil. Junto conosco nesta jornada estavam os meninos do então Cordel do Fogo Encantado e numa das viagens de uma cidade a outra do Nordeste, Lirinha estava com um livro nas mãos. Eu tenho uma mania incontrolável de querer saber o livro que as pessoas estão lendo, não sossego até ver a capa. Uma mania incontrolável que acho ser consequência de um vício incontrolável, uma obsessão louca por livros, cheiro de livros, palavras, histórias. Enfim, não me contive e quis saber qual era aquele autor que o tomava apaixonadamente em sua leitura e Lirinha, então, emprestou-me o livro para que eu pudesse ler durante aquele percurso no avião. O que foi maravilhoso para me distrair do pavor que tinha em andar naquele pássaro artificial.

Manoel de Barros, foi assim que, inesperadamente, entrei em comunhão com o poeta-passarinho e me entreguei apaixonadamente ao seu encanto de ser-brincadeira com suas palavras-imagens. Sabia que em algum momento ele seria meu companheiro de jornada e fui alimentando minha imaginação com suas “ignorãças”.

Na mesma época, estava estudando a obra de Guimarães Rosa para a montagem de um espetáculo inspirado no livro Miguilim, dirigido por meu amigo e parceiro de criação Munish. Quando estudávamos esses escritos de Rosa e sua história maravilhosa, o Munish achou que seria interessante vermos um documentário. Marcamos um encontro em sua casa, um encontro mineiro, com comidinhas gostosas e nos colocamos diante da tela para ver “Só 10% é mentira”, um documentário sobre quem? Ele, o meu poeta-passarinho de novo se fazendo “árvore” no meu viver. Fiquei emocionada, admirada, extasiada com a imagem daquele ser-criança.

Eu desde muito nova criei uma lista de pessoas que eu gostaria de ter tocado/tocar, pessoas que eu queria encontrar e abraçar e ver se são de verdade mesmo. Guimarães já fazia parte dessa lista e, após ver o documentário, Manoel de Barros entrou para a minha lista de quereres.

Alguns anos se passaram e eis que me vejo apaixonada pela pesquisa gestual, um teatro que me pulsa e que me foi apresentado por um grupo que admiro muito (Cia. Dos à Deux). E diante dessas paixões que por mais que a gente queira, não nos largam e habitam o nosso viver, mesmo quando se colocam apenas como figurantes em nosso caminhar, lá fui arremessada para a obra de Manoel e Guimarães novamente.

Uma viagem para Belo Horizonte, para visitar meu amigo Munish, um passeio e uma visita ao museu do artesanato mineiro. Um artesanato pelo qual nunca havia me interessado e de repente lá estava eu diante das bonecas de argila feitas pelas artesãs do Vale do Jequitinhonha, que ganharam um livro lindo chamado Noivas da Seca, da Laladah Dalglish, pesquisadora e professora da UNESP.

Foi aí que eu resolvi que faria um encontro entre as bonecas, Guimarães e Manoel. Começou a tomar corpo com a colaboração de ex-alunas Elaine, Elienay e Rauenna, do curso profissionalizante do Indac e, depois de um hiato e transmutações no percurso, o encontro se fez mais certeiro, agora, que iniciei a minha pesquisa na pós-graduação em artes do corpo, na aula da querida e encantadora professora Sônia de Azevedo Machado.

Pode ser que tudo se transforme e tome diferentes rumos, mas saber que, no momento em que comecei a mergulhar nas palavras-imagens de Manoel de Barros, ele foi passarinhar em outros cantos do mundo, foi de uma tristeza que eu não sei nomear. Apenas dizer que é um jeito egoísta de querer que ele fosse eterno, para que eu ainda tivesse a possibilidade de tocá-lo e ver de pertinho aqueles olhos cor de peixe que brilhavam vagalumes.

Em algum canto do universo deve estar rolando uma festa das boas, porque esse ano nos despedimos de muitos seres especiais. Adeus, meu poeta menino que eu amo amar.

“O abandono do lugar me abraçou de com força.

E atingiu meu olhar para toda a vida.

Tudo o que conheci depois veio carregado de abandono.

Não havia no lugar nenhum caminho de fugir.

A gente se inventava de caminhos com as novas palavras.

A gente era como um pedaço de formiga no chão.

Por isso o nosso gosto era só de desver o mundo.”

(MANOEL DE BARROS, 1916-2014)

 

O homem de pedra 15/10/2014

Filed under: Palavras ao vento - Meus Contos — cristianeurbinatti @ 16:25
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Pôr-do-Sol

Um caminho de pedras à beira do rio. O som dos pássaros na copa da árvore. A água gelada corre a montanha. Os pés da menina descalços na terra. Ela corre, ela ri, ela grita: “Voltaaaaaaaa!” Num grito alado, fôlego de criança.

_ Voltaaaaaaaaaa!

Na casa, as cortinas balançam ao vento. O canto da mãe embala o vazio das horas. Cozinha, de pés descalços, canta…

A menina vai longe sem saber pra onde voar – “Volta! Voltaaaaaaaaa!” – segue o balão de gás vermelho no céu, que vai sangrando, valsando com o vento. Desenhando no espaço a saudade do antes.

A tarde se põe e o negrume da noite invade o casebre detrás do morro. A mãe põe a mesa e a menina vai longe. A mãe sente o coração beliscar. A menina não pode parar. Uma lágrima escorre no rosto pálido da mãe. O espanto surge no canto da boca da menina. A mãe quer gritar “Volta!” A menina calada observa a imagem do homem na pedra.

A comida no prato esfria na mesa. A imagem da mãe pela janela. Nada vê, o corpo estremece, não sai do lugar.

O balão se perde no escuro da noite. A menina abraça a estátua de pedra. Sussurra: Volta! Num sopro infantil. E, então, ela sorri e corre de volta pelo caminho do rio, com os pés descalços na terra, seguindo a trilha de pedras.

A mãe a aperta nos braços, um afago feroz – “Onde estava, menina?”

“Foi meu coração!” – respondeu a menina – “Ele bateu muito longe e eu o segui.”

“Eita, menina, a comida esfriou!”

PS: Texto nascido numa tarde de Histórias Libertas, workshop ministrado por Cláudia Pucci Abrahão, no dia 11.10.14

http://historiaslibertas.com.br/

 

Alma Atmosfera-se Alma 21/09/2014

Zelia e Zeca

Zélia Duncan e Zeca Balero

O primeiro show de Zélia Duncan… fui no lançamento do primeiro álbum. Zeca Balero nunca havia visto ao vivo. Na verdade, constato que vou rarissimamente à shows. Por descuido mesmo!

Mas eis que eu consigo comprar os ingressos para o show dessa dupla que eu amo…

Zélia Duncan é uma das poucas cantoras que me tocam profundamente quando ouço cantar e esse encontro mágico dessas duas vozes brasileiras é uma viagem ao mundo suspenso, um mundo de prazer.

Esperando ansiosamente para o dia do show, que ocorreu no dia 17.09.14, no Theatro Net (absolutamente elitista diga-se de passagem e que não oferece contrapartida alguma para a fomentação da cultura, mas isso não vem ao caso aqui, pois não é algo a ser delatado superficialmente e como disse Zeca – “a cada teatro que é inaugurado, uma igreja a menos em funcionamento”. Amém!). Enfim, a espera valeu cada segundo de expectativa e ainda reverberando a experiência, consegui relatar somente agora, sabendo que não alcançará toda a força que teve.

Ela entra com um figurino lindo e uma presença cênica que eu almejo cada vez mais como atriz; ele entra seguro de seu espaço, assim como quem não quer nada e toma conta. Tudo muito simples, sem grandes aparatos tecnológicos. Os dois em suas cadeiras mágicas, com seus instrumentos mágicos, suas presenças imantadas de talento e suas vozes amplificadas de potência e apuro artístico. Que lindas vozes, que harmonia, em uníssono nos invade no primeiro acorde.

A iluminação do show é um personagem à parte neste tapete de magnitude. A luz me transportou para outro estado, para outros lugares de mim e fiquei ali, plainando êxtase e prazer e desejos. A iluminação atmosfera-se dentro da minha imensidão, me eleva a alma que em estado de graça, comunga com todas as alegrias de um pequeno instante. Minutos que passaram rápido demais e que duraram um universo inteiro da minha eternidade.

A Arte faz dessas coisas comigo. A Arte que habita seres como essas duas figuras que nos presentearam com beleza e magnetismo. Essa Arte tem um poder sobre mim que me faz voar, flutuar, ser eu, ser muitas, ser toda. Uma Arte que me envolve, uma Arte que eu acredito ser Arte com “A” maiúscula. Essa faz tudo valer à pena e me ensina um pouco mais a trilhar minha história.

Os dois divertidos, num jogo cênico coeso, cheios de intensidades, de cumplicidade, de carinho. Zélia, ah Zélia, impossível desgrudar os olhos de você um só instante! Saí completamente apaixonada, mais apaixonada por esses dois. Pena que algumas pessoas assistiram ao show pela mini tela de um celular, mesmo sendo dado alguns recados sobre não usar aparelhos de celular para fotografar ou filmar, algumas pessoas insistem em viver a ficção e não o momento. Tenho muita pena delas, pois dirão o quão foi sensacional o show, mas o que elas experimentaram não chegará aos pés daqueles que ficaram um comunhão com o momento presente, com a imagem em carne e osso de Zélia e Zeca, transpirando presença e estado de graça.

Foi mágico e tenho vivido momentos assim na Arte que eu admiro. Graças aos deuses!

Que minha alma atmosfera-se mais e mais…

 

Irmãos de Sangue e seus atravessamentos 07/09/2014

Filed under: Cantos da praça - Minhas Impressões,Sonhos — cristianeurbinatti @ 22:56
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Irmãos de Sangue, Cie. Dos à Deux

Irmãos de Sangue, Cie. Dos à Deux

Fui nesta sexta-feira, dia 05 de Setembro de 2014, experienciar Irmãos de Sangue, da Companhia Dos à Deux. Mais um passo para esta minha jornada que se iniciou com Dos à Deux, depois com Aos pés da letra, Saudade em terras d’água, Fragmentos do desejo e Ausência. Uma jornada que me arrebata sempre e que me faz apaixonar cada vez mais pelo teatro gestual.

André Curti e Artur Ribeiro alimentam uma das melhores (para mim a melhor) companhia de teatro da atualidade. Afirmo isso sem dúvida alguma e sem titubear um só instante e digo o porquê: a consistência artística é impecável sempre, qualidade cênica que dignifica o teatro, o ritual, a beleza e criam uma poética criativa cheia de primor. Toda que vez que os assisto, não resisto em me desmanchar em elogios. Acompanhando-os há 14 anos, sinto-me cúmplice nessa trajetória, pois sou completamente atravessada e nunca saio decepcionada de nenhum de seus espetáculos.

Fugindo da minha loucura caótica de São Paulo, fui aportar meu coração no colo de meus pais, à beira-mar de Santos. Aproveitando o momento para prestigiar Mirada, evento realizado pelo Sesc. De imediato, fiquei indignada, por colocarem um trabalho delicado e intimista como o da Companhia no ginásio da unidade. Ao entrar, vi que haviam recriado uma caixa preta para recebê-los. Um pouco mais aliviada, mas sabendo que a qualidade técnica de um espaço como esse podia ser prejudicada. Que nada!

Ao meu lado, uma senhora que nunca havia visto nada deles e eu, nesse amor eterno, fazendo-a se apaixonar também. Como me acontece sempre, desde muito pequena, antes de começar uma peça ou um filme, um frio na barriga e a ansiedade de que comece logo. Que a viagem se inicie e que eu me perca neste mundo de sonho e magia.

As luzes se apagam depois de um considerável atraso e pronto, lá fui eu tomada de arrebatamento. Já na primeira cena fui transportada para este meu delicioso mundo encantado de nome Cia. Dos à Deux. Como é lindo, cruel, verdadeiro, inusitado cada pedacinho do espetáculo. Como eles conseguem surpreender quando eu acho que já conheço tudo o que eles são capazes de fazer. Como é simples e ao mesmo tempo intenso e complexo o que eles apresentam. Uma história linda desses Irmãos de Sangue, que se complementam na vida e no palco, que estão disponíveis para captar o que há de mais humano existente e como são inteligentes ao transpor tudo para o palco.

Mirada - Sesc Santos

Mirada – Sesc Santos

Eu já não estava mais no ginásio do Sesc Santos, eu estava no admirável mundo de Artur Ribeiro e André Curti e seu teatro gestual. Eles no palco e eu na plateia, ambos sendo desnudados por este atravessamento artístico.

Numa entrevista para Anna Claudia Ramos, Ana Maria Machado conta que quando era pequena ela dizia ao seu pai que “queria livros de morar dentro”. Eu queria morar dentro dos espetáculos da Companhia Dos à Deux, esperando Godot, lidando com minha loucura, emigrando para longe da seca, descobrindo minha identidade diante do pai, me enclausurando num futuro solitário ou convivendo com os laços de sangue que nos constroem. Eu fico ali na plateia desejando que a hora e meia se torne nove horas, um dia, um para sempre… só pra morar ali mais um pouco e mais um pouco e mais um pouco.

Que delícia deve ser acompanhar um processo de criação dessa dupla (fico curiosa pra saber de onde vem tanta criatividade), que são há muito e continuarão sendo a fonte de inspiração para o meu caminho como atriz, para minha identidade artística e para a construção da minha poética cênica.

Um caso de amor de amor eterno por esses rapazes!

Desejo a eles muitos anos de vida.

PS: Cruzando todos os dedos para que chegue o dia que possa ter os DVDs de todos os espetáculos e passo assistir quando eu quiser, aquele que eu quiser, rs.

Foto da peça retirada do site: Cia. Dos à Deux

 

 

Quando acordar é querer dormir… 22/07/2014

Filed under: Sem categoria — cristianeurbinatti @ 14:47

A preguiça do mundo me engoliu inteira e me fez cama.